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Estudo · segurança de quem anda a pé

Atropelamento de pedestre em São Paulo: onde, quando e quem

131.592 atropelamentos registrados pelo Infosiga entre 2015 e 2026 mostram um padrão que segue o pôr do sol, não o relógio; um gradiente de idade e de sexo que se replica no país inteiro; e um erro de mapa que faz do hospital a “rua mais perigosa” de várias cidades.

Por BairroSafe Publicado Dados até · vintage 2026-09-01 Método

Ficha do dado

Fonte primária
Infosiga-SP (Detran-SP), 139 meses: 1.422.535 sinistros · 1.915.483 pessoas · 1.671.325 veículos
Replicação
RENAEST (Senatran), 216.782 atropelamentos nacionais, 2018-2026
Atropelamentos em SP
131.592 pedestres · 114.462 com coordenada real desde 2019
Cobertura de coordenada
99,6% até dez/2024 · cerca de 57% desde jan/2025 (mudança de registro, não de trânsito)
Hospital ou centroide
9,9% dos atropelamentos georreferenciados, excluídos de qualquer ranking de rua
Últimos 12 meses
10.170 atropelamentos nas 30 cidades BairroSafe de SP
Gravidade
“graves” e KSI = mortos e feridos graves (killed or seriously injured), morte contada em até 30 dias
Licença
Agregado CC BY 4.0 · código MIT · citação abaixo

Por que o atropelamento aumenta no inverno?

RespostaPorque o pôr do sol chega às 17h30 em junho e às 19h em dezembro, e o pico de gente na rua é fixo, entre 17h e 19h. Quando o escuro cai sobre o pico, a hora das 18h concentra o dobro dos atropelamentos: 11,0% em julho contra 5,6% em dezembro.

A massa de atropelamentos não cresce: ela migra. No inverno a hora das 18h ganha e a das 21h perde o que a outra ganhou. O atropelamento acompanha a escuridão, não o relógio. O mesmo deslocamento apareceu quando o Brasil aboliu o horário de verão em 2019: o pico foi das 21h para as 19h de um verão para o outro.

Se a causa é o sol, o efeito precisa crescer com a latitude, porque o pôr do sol varia mais no Sul do que perto do Equador. É o que o RENAEST nacional mostra abaixo.

Participação da hora das 18h nos atropelamentos, mês a mês, por faixa de latitude

RENAEST 2022-2025, hora limpa · em % dos atropelamentos do mês

0%3%6%9%12%15%18% janfevmarabrmaijunjulagosetoutnovdez SulSE+CONE
Sul (RS, SC, PR) · 22.772Sudeste e Centro-Oeste · 63.639Nordeste · 6.909
Sul: 14,7% no inverno contra 8,7% no verão (1,7×). Sudeste: 10,9% contra 6,9% (1,6×). Nordeste: 10,5% contra 10,1%, sem ciclo. Por estado: SP 1,72×, PR 1,67×, SC 1,58×, MG 1,35×.
Placebo geográfico. No Nordeste o pôr do sol varia menos de 40 minutos no ano, e lá a curva é plana. Férias, feriados e calendário escolar são nacionais e não explicam por que o efeito some perto do Equador.

A hora das 18h ganha o que a das 21h perde

Infosiga 2019, 2022-2024, sinistros consolidados · % dos atropelamentos do mês

0%3%6%9%12% jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez
18h21h
Hora das 18h em jun-jul contra dez-jan: 10,9% contra 6,0%, z = 10,6.

O escuro faz o motorista não ver, ou faz a via acelerar?

RespostaAs duas coisas, em lugares diferentes. Na malha municipal, o escuro desloca os atropelamentos para as 18h mas não muda a gravidade: o KSI hora a hora é igual no inverno e no verão. Na rodovia, o escuro triplica a hora das 18h e sobe a gravidade em 10 pontos.
Jurisdição18h inverno18h verãorazãoKSI 17-19h invernoKSI 17-19h verão
Malha municipal (n = 41.056)10,1%6,6%1,5×17,7%17,5%
Rodovia (n = 4.688)18,0%5,4%3,3×63,9%54,0%

Às 18h a avenida está congestionada e a velocidade não sobe; o motorista vê tarde demais e o evento acontece, mas em baixa velocidade. Na rodovia o pedestre atravessa onde não há travessia, no escuro, contra um carro que não freou. Ver tarde gera o evento; a velocidade decide o desfecho. KSI significa mortos e feridos graves.

Um terceiro teste, preliminar: com o sol nascendo, o atropelamento concentra nas vias alinhadas com o sol (28,2% contra 23,8% esperado, z = 3,6); com o sol se pondo, nada mensurável. Nas vias de mão única, onde se sabe para que lado o carro anda, a frequência é a mesma com o sol na frente ou atrás do motorista. A gravidade não: com o sol na cara do motorista, 9,6% dos pedestres morrem; com o sol atrás dele, 5,3% (z = 2,6). Quem não vê não freia.

Quais vias esvaziam e aceleram à noite?

Resposta114 corredores em 19 cidades têm a mesma contagem de atropelamentos de dia e uma fatia de mortos e feridos graves que pelo menos dobra à noite. Não é bar nem balada: nessas vias todo tipo de comércio é mais raro que a média e o crime perto é menor. É a via larga que perde o pedestre e ganha velocidade.

Estado de lugar

As oito vias que mais mudam de estado

Corredores com mais atropelamentos noturnos entre os que viram: pelo menos 10 casos desde 2019, 3 por período, gravidade noturna de 30% ou mais e ao menos o dobro da diurna. A página de cada cidade lista os dela.

  1. Rodovia Presidente Dutra · Guarulhos

    rodovia / concessão · 66 atropelamentos desde 2019, 9 em 12 meses · 22 km

    46%

    graves à noite · 18% de dia

    44 à noite · 22 de dia

  2. Rodovia Raposo Tavares · Sorocaba

    rodovia / concessão · 46 atropelamentos desde 2019, 6 em 12 meses · 10 km

    75%

    graves à noite · 33% de dia

    40 à noite · 6 de dia

  3. Rodovia Ayrton Senna · Guarulhos

    rodovia / concessão · 40 atropelamentos desde 2019, 5 em 12 meses · 13 km

    72%

    graves à noite · 25% de dia

    32 à noite · 8 de dia

  4. Avenida Senador Teotônio Vilela · São Paulo

    via municipal · 74 atropelamentos desde 2019, 1 em 12 meses · 4,2 km

    35%

    graves à noite · 11% de dia

    29 à noite · 45 de dia

  5. Rodovia Santos Dumont · Campinas

    rodovia / concessão · 34 atropelamentos desde 2019 · 9,1 km

    50%

    graves à noite · 17% de dia

    26 à noite · 6 de dia

  6. Rodovia Comunicador Silvio Santos · São Paulo

    rodovia / concessão · 29 atropelamentos desde 2019, 3 em 12 meses · 4,4 km

    67%

    graves à noite · 13% de dia

    21 à noite · 8 de dia

  7. Avenida Otaviano Alves de Lima · São Paulo

    via municipal · 28 atropelamentos desde 2019, 7 em 12 meses · 5,4 km

    41%

    graves à noite · 18% de dia

    17 à noite · 11 de dia

  8. Estrada do Imperador · São Paulo

    via municipal · 27 atropelamentos desde 2019, 1 em 12 meses · 3,7 km

    53%

    graves à noite · 10% de dia

    17 à noite · 10 de dia

Corredor = via de nome normalizado numa só jurisdição; noite = 18h às 5h. Só sinistros com coordenada real, fora de hospital e centroide.

Quem morre quando é atropelado?

RespostaO homem, em todo estrato: mesma hora, mesma jurisdição, mesma idade, o pedestre homem morre 2,3 vezes mais que a mulher. O gap fecha com a idade, de 2,5× aos 20 anos para 1,5× aos 60 e 1,0× aos 90, e o RENAEST nacional repete a forma.

Letalidade do pedestre atropelado por faixa etária e sexo

Infosiga 2019-2026, 110.429 pedestres com sexo informado · % que morreu em até 30 dias

0%5%10%15%20%25%30% 0-410-1420-2430-3440-4450-5460-6470-7480-8490+ M F
Masculino · 63.879Feminino · 46.550
Aos 90 anos ou mais as curvas se encontram (27,3% e 27,2%). Quando o comportamento converge, sobra a fisiologia, e o gap desaparece. Nacional (RENAEST): 2,9× aos 18-24 anos, 1,2× aos 80+.

A criança morre no impacto ou sobrevive: 92% das mortes de 0 a 4 anos acontecem no dia do atropelamento. O idoso morre de complicação dias depois: 23,5% das mortes acima de 90 anos vêm após uma semana. São duas mortes com intervenções opostas, e o dado já as separa pelo campo de local do óbito.

A criança de 5 a 14 anos é atropelada no trajeto da escola, não na porta dela. O meio-dia concentra 9,7% dos atropelamentos infantis contra 5,2% dos adultos (z = 15,8); das 6h às 8h em dia útil, 8,1%; no fim de semana, 0,8%. Um raio de 150 m em torno da escola não vê isso. A hora vê.

O carro velho mata mais o pedestre?

RespostaMenos do que parece. Atropelado por automóvel com mais de 20 anos, o pedestre tem 20,3% de chance de morrer ou ficar gravemente ferido; por carro de até dois anos, 15,0%. Mas o carro velho roda no bairro pobre, e o bairro pobre mata mais o pedestre com qualquer carro: dentro da mesma faixa de renda a diferença cai para 8%, e só na via municipal ela sobrevive (17%). Metade do efeito é geografia.

KSI do pedestre por idade do automóvel que o atingiu

Infosiga 2019-2026, malha municipal, um único veículo envolvido, sinistros consolidados

0%6%12%18%24% 0-2 anos3-56-910-1415-1920+ anos 15,0%20,3%
Do carro novo ao carro de 20+ anos: +35% de KSI, z = 6,5, sem controle. Controlado pela renda do bairro (Censo, tercis): +8% (z = 1,4, indistinguível de zero) no geral e +17% (z = 3,1) só na malha municipal. Carro velho: 16,9% dos que atropelam no tercil pobre, 6,6% no rico.

A participação de atropelamento entre os sinistros de cada faixa de idade do carro é plana, entre 6,1% e 6,8%: o carro velho não atropela mais. O que muda é o desfecho, e o desfecho tem dois donos. Com o carro fixo em menos de 10 anos, o pedestre atropelado na via municipal do tercil mais pobre morre ou fica grave em 13,4% dos casos, contra 10,9% no tercil mais rico. A idade da frota ainda pesa, mas menos: capô e para-choque com proteção ao pedestre são coisa da década de 2010 e a frenagem automática é mais recente. A primeira alavanca é a via do bairro pobre; a frota vem depois.

Por que a rua do hospital aparece como a mais perigosa?

RespostaPorque a notificação de atropelamento feita no atendimento leva o endereço do hospital, e o mapa empilha centenas de eventos numa coordenada só. Em São José dos Campos, a Rua Saigiro Nakamura, endereço do Hospital Municipal, concentra 118 atropelamentos, 93% deles notificações.
Tipo de coordenada fixaComo se reconhecePontosAtropelamentos% do total geo
Centroide de município5 ou mais logradouros distintos na mesma coordenada2.2327.0086,1%
Centroide de via10 ou mais números distintos na mesma coordenada1.2242.4682,2%
Endereço de hospital60% ou mais de notificações, poucas vias6751.7951,6%

Em Jaú, 36% dos atropelamentos georreferenciados caem em coordenada fixa; em Americana, 20%; em Sorocaba, 15%; em São Paulo capital, 1,7%. Em Piracicaba, 1.168 sinistros de 720 ruas diferentes dividem uma única coordenada: o geocodificador caiu no centro do município. Nenhum ranking de rua deste estudo usa essas coordenadas, e a página de cada cidade informa quanto foi excluído.

O motorista foge mais de madrugada?

RespostaSim, e o registro mostra sem querer: de madrugada, 25,6% dos atropelamentos não fatais têm veículo de tipo desconhecido, porque o carro não ficou. De manhã, 7,0%. A madrugada de segunda é a pior, com 36%.
TurnoVeículo sem tipoFeridos graves (sem tipo)Feridos graves (identificado)
Manhã7,0%9,2%11,4%
Tarde8,9%8,3%12,3%
Noite12,9%12,5%15,6%
Madrugada25,6%13,6%19,8%

O evento com veículo não identificado tem menos feridos graves registrados, não mais. Ou o pedestre grave gera investigação que encontra o carro, ou o registro de fuga é feito só pela vítima e subestima a lesão. Os dois cabem, e nenhum deles é “fuga é menos grave”. Diferença madrugada contra manhã: z = 31.

A lente da fonte

O que o registro mede, e não é o atropelamento

Cada número desta página passou por quem registrou. Estes são os desvios que medimos na própria fonte; eles ficam declarados aqui em vez de escondidos no método.

  • pesa muitodesloca no mapa

    Cobertura de coordenada. Desde janeiro de 2025 a notificação feita no atendimento chega quase sem coordenada. Os totais usam todos os registros; bairros e vias usam só os que têm posição real.

    Medido: 27,5%

  • pesa muitodesloca no mapa

    Coordenada fixa de registro. Parte das coordenadas é o endereço do hospital ou o centro do município, não o lugar do atropelamento. Esses pontos ficam fora de todo ranking de rua e bairro deste site.

    Medido: 9,9%

  • pesa muitodesloca no tempo

    Rota de registro. O atropelamento fatal é registrado a partir da vítima e quase nunca traz o condutor ou o veículo; a notificação feita no hospital traz o pedestre sozinho. Comparar condutor, veículo ou álcool entre fatal e não fatal compara rotas de registro, não fatos.

    Medido: 93,6%

  • pesadesloca no tempo

    Evasão. De madrugada, um em cada quatro atropelamentos não fatais é registrado sem o tipo do veículo, porque o carro não ficou. A contagem por tipo de veículo é a dos que pararam.

    Medido: 25,6%

  • pesadesloca no tempo

    Vítima não identificada. Um em cada sete pedestres mortos não tem idade no registro: corpo não identificado, em rodovia, à noite. O gradiente de idade que esta página mostra é o dos identificados.

    Medido: 14,1%

O que o senso comum diz e o dado não confirma

RespostaOito hipóteses populares foram testadas com o mesmo rigor dos achados acima e não sobreviveram. Publicá-las evita que voltem, e diz ao leitor o que este estudo não afirma.
  • ✕Carro escuro atropela mais à noite. 42,2% de cor escura nos atropelamentos noturnos contra 41,9% nos demais sinistros; KSI 19,6% contra 19,7% (z = −0,2).
  • ✕Feriado é dia de atropelamento. Feriado tem menos atropelamentos e a mesma letalidade de um domingo: 16,4% contra 15,9% (z = 0,5). O que existe é a cidade vazia.
  • ✕Perto da escola é mais perigoso. A 150 m de escola, a chance é igual à do resto (lift 1,0). A escola é uma entidade no tempo, não no espaço.
  • ✕Um atropelamento puxa outro na mesma rua. Pares na mesma via com 1 dia de intervalo: 382; com 28 a 35 dias: 360 a 425. Nenhum contágio.
  • ✕Ônibus e caminhão fazem as vítimas múltiplas. Dois ou mais pedestres atingidos: automóvel 22,9%, moto 22,6%, ônibus 17,9%, caminhão 13,5%. É o grupo atravessando junto.
  • ✕A madrugada de fim de semana é diferente. KSI 20,6% contra 20,7% na madrugada de dia útil. Entregador e turno cedo, não só balada.
  • ✕Chuva aumenta atropelamento. Chuva tira o pedestre da rua: 4,72% dos acidentes contra 5,18% com céu claro (RENAEST, campo com muita ausência).
  • ✕A iluminação do bairro protege o pedestre. Score de iluminação do bairro não prediz KSI noturno (24,3% contra 23,5%). A iluminação que importa é a da via, não a do bairro.

Como está a sua cidade?

RespostaCada cidade tem sua página com o mesmo método: atropelamentos por bairro, via, turno e faixa etária nos últimos 12 meses, com a cobertura de coordenada e o que foi excluído por ser endereço de hospital. Cidades com poucos casos mostram um resumo, não um ranking.

Como citar e baixar os dados

RespostaO agregado por bairro, mês, modo e faixa etária está sendo depositado no Zenodo sob CC BY 4.0, com a coluna de cobertura de coordenada e a flag de coordenada fixa. O código que gera tudo é aberto. Até o DOI sair, cite esta página com a data do vintage.
DOI em depósito

Dataset. BairroSafe (2026). Atropelamentos de pedestre no estado de São Paulo, 2019-2026: agregado por bairro, mês, modo e faixa etária, com cobertura de coordenada [Conjunto de dados]. Vintage 2026-09-01. https://bairrosafe.com/sp/atropelamentos/

Working paper. BairroSafe (2026). Escuridão, não relógio: o atropelamento de pedestre segue o pôr do sol. Três desenhos convergentes no Infosiga e no RENAEST. Preprint.

Fontes primárias: Infosiga-SP (Detran-SP, dados abertos) e RENAEST (Senatran). Malha viária: OpenStreetMap. Os dados brutos não são redistribuídos; o agregado é reproduzível pelo código.

Perguntas frequentes

O que é KSI?

A soma de mortos e feridos graves de um sinistro (do inglês killed or seriously injured). Morte conta em até 30 dias após o sinistro, como na regra internacional já aplicada pela fonte.

Por que o mapa de 2025 tem menos pontos?

Desde janeiro de 2025 as notificações feitas em atendimento deixaram de vir com coordenada: a cobertura caiu de 99,6% para cerca de 57% de um mês para o outro. Não houve queda de atropelamentos; houve mudança de registro. Comparações 2024 para 2025 por contagem bruta são inválidas.

Qual a hora mais perigosa para o pedestre?

Depende do que se mede. Em volume, 18h e 19h. Em letalidade, a madrugada: entre 23h e 5h a taxa de KSI é de 32% a 42%, contra cerca de 25% no pico da tarde.

Esses números valem para a minha rua?

Não sem ressalva. Ranking por rua só é publicado onde há coordenada real, jurisdição municipal e casos suficientes, e sempre com o hospital e o centroide excluídos.

Os dados podem ser usados em pesquisa?

Sim. O agregado por bairro, mês e faixa etária está sendo depositado no Zenodo sob CC BY 4.0; até lá, cite esta página com a data do vintage.